SobreTudo!

Era dezembro. A nova neve que caía, mal chegava ao chão e logo mais derretia. As casas, branquinhas pela neve, tinham chaminés de onde saíam fumaças e cheiro de azevinho o que fazia com que se imaginasse o estalar da madeira queimando ou um abraço carinhoso de um familiar.
Sim, já era natal. O sol, despotava no centro do céu anunciando o meio-dia. Era meio contraditório a luminosidade e calor latente do sol contra a neve tão fria - a ponto de queimar - que caía.
Algumas pessoas haviam saído de casa na esperança de aproveitar o momento mágico que era a queda dos flocos de neve e caminhavam lado a lado para se esquentar com o calor humano. Uma criança corria e sua cabecinha coberta com o gorro deixava apenas alguns fios de cabelo, dourados como o trigo, à mostra. Um dedinho apontava para um grupinho de crianças logo à frente que faziam um boneco de neve.
Como será a neve? A sensação do vento frio e gotículas minúsculas de gelo caindo aos poucos na face?
”Algo que nunca experimentarei.” pensou a criança que via toda essa imagem congelada na bola. Um desejo intenso e uma tristeza, misturados com a certeza de que nunca teria a oportunidade de apreciar isso aprofundou-se em seu pequeno coração.
Levantou-se do chão e atravessando o beco onde se encontrava tornou a devolver ao local de onde tirara o bibelô de natal. Sentando-se ao lado da lata de lixo, lembrou-se das vezes que sua mãe, mesmo sendo moradores de rua, sempre dava um jeito de tornar a noite de natal uma data especial. Agora que uma gripe endêmica levou-a para os céus, estava sozinho no mundo. Pegou novamente o enfeite do lixo para se sentir mais próximo de sua mãe.
Um homem que passava de terno e sobretudo viu a criança farroupilha encolhida num canto, olhando para um enfeite de natal quebrado, com certeza tirado do lixo. Lembrou-se de quando veio sozinho morar na cidade, quando teve que se afastar da família para poder crescer financeiramente e poder ter uma vida melhor em qualidade e quantidade. Lembrou-se como se sentia sozinho às noites de natal, comendo metade de um frango assado de supermercado e uma taça de vinho. Solidão ele conhecia bem, mas compaixão e solidariedade brotaram de seu coração há muito congelado.
Aproximou-se da criança e, agachado, tocou no ombrinho magro. Ela olhou para cima e de seus olhos transpassava a esperança. Num impulso desconhecido, abraçou-a. Ela por sua vez sussurrou que sentia-se feliz por ele ter vindo logo. Estava fraca, notou ele. Então tomou-a nos braços, levando o garotinho consigo para casa.
Agora eram família. Haviam se encontrado naquela beira de rua. Os sentimentos que afloravam nos dois se encontraram e preencheram-se. A criança cresceu com um pai que nunca teve. O homem criou um filho que nunca imaginou ter.
A magia do natal fez efeito nos dois corações. O Papai Noel, o espírito de natal ou qualquer ser mágico, atendeu ao pedido dos dois naquele dia: não ficar mais sozinhos.
E nunca mais passaram outro natal à sós.
flor,
ator,
amor,
autor,
vapor,
frescor,
escritor,
multicor,
lenhador,
opressor,
sonhador,
confessor,
descobridor,
colecionador,
tudo menos dor.”
(Source: derrotados, via pedrofelipegama)





